|
CERRADO: ASPECTOS BIOGEOGRÁFICOS
ROBERTO MALHEIROS *
RESUMO
O entendimento sobre os aspectos ambientais do cerrado, exige uma análise integrada entre os elementos da fauna, flora e o espaço geográfico, como eles se relacionam com os demais componentes da natureza. Acredita-se que, a grande biodiversidade do cerrado, está vinculada a diversidade de ambientes. Esta correlação permite nos vislumbrar o ambiente na sua totalidade, o que facilita o estabelecimento adequado de políticas ambientais para região dos cerrados.
INTRODUÇÃO
Geograficamente, a região dos cerrados situa-se em um local estratégico que facilita o intercâmbio florístico e faunístico, entre os domínios brasileiros. Representado no centro do país, a sua área corre o domínio do cerrado, estende-se de um extremo ao outro, do Mato Grosso do Sul ao Piauí em seu eixo maior, e limita-se, para oeste, com a Floresta Amazônica, para o leste, com a vegetação de Caatinga nordestina, sendo acompanhada ao sul e sudeste pela Floresta
Atlântica. Essas ligações favoreceram a instalação de corredores de migração importantes, tanto por via terrestre quanto aquático
. Professor adjunto I da Universidade Católica de Goiás, Pesquisador do Instituto do Trópico Subúmido. Mestre em Geografia (IESA – UFG).
Os limites geográficos da região dos cerrados não coincidem na totalidade, mas reveste grandes extensões dos Estados de Goiás, Distrito Federal, Tocantins, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, parte de Mato Grosso, oeste da
Bahia, sul do Maranhão e Piauí, boa parte de São Paulo, com radiações para Rondônia e Paraná. Em tempos remotos tinha uma maior abrangência, mas atualmente esta expansão é atestada por testemunhos na forma de enclaves na região amazônica (Amazonas, Pará, Amapá e Roraima). Por decorrência de expansão, ligada ao transporte por desgaste erosivo do Planalto Central, o cerrado atingiu os Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, ocupando grandes área dos Tabuleiros litorâneos (FERNANDES & BEZERRA, 1990, 130-131).
A constituição do quadro vegetacional e a distribuição da fauna pelo Domínio dos Cerrados tem intrigado diversos pesquisadores, no decorrer de vários anos. Quanto à origem e evolução pode-se atribuir grande parte dos fenômenos descritos para toda América do Sul, que refletiram decisivamente nas partes centrais do Brasil .
ASPECTOS BIOGEOGRÁFICOS
No que se refere à constituição dos cerrados, muitos autores não compreenderam a sua complexidade. Criaram diversas teorias voltadas para explicar apenas um tipo de fisionomia vegetal, não considerando as demais como parte integrante desse domínio, tanto pelos aspectos florísticos como ecológicos. A teoria do xeromorfismo das plantas do cerrado aborda somente as formações abertas, pois trata tipicamente de características desses ambientes como: folhas coriáceas e pilosas, tortuosidade e subdesenvolvimento tanto no tronco como nos galhos, existência de xilopódios, deciduosidade em determinado período da estação seca, etc. Essas características levaram alguns pesquisadores a considerar o cerrado como uma vegetação xerófita, dentre eles Warning (1908) e Lutzelburg (1923).
A idéia do xeromorfismo das plantas do cerrado foi negada por Ferri (1955) ao comparar representantes típicos da caatinga com outros do cerrado, em relação à estrutura foliar e à transpiração. O resultado geral deste trabalho mostrou que as plantas da caatinga reduzem a perda de água por transpiração, enquanto as do cerrado perdem água sem restrição. De outra parte, as plantas do cerrado não estão condicionadas à escassez de água no solo, pois durante a estação seca não existem sinais de murchamento, nem mesmo interferência na floração e frutificação das espécies. Os trabalhos experimentais de Coutinho & Ferri (1956) reforçaram as afirmações contrárias ao xeromorfismo, quando comprovam que a maioria das plantas dos cerrados mantêm os estômatos abertos durante todo o dia, assegurando assim uma transpiração livre (KUHLMANN et. al., 1980).
Constatando o fato de que não havia relação entre xeromorfismo e o abastecimento de água, partiu-se então para o esclarecimento das causas que resultaram na configuração apresentada pelas plantas do cerrado. Arens (1963) lança o conceito de “oligotrofismo”, o qual atribui à carência de micronutrientes no solo o aspecto xeromórfico das plantas do cerrado. Para Arens (Id.) a falta de nutrientes para as plantas limita o uso dos produtos que realizam a fotossíntese, os quais ficam acumulados e geram um excesso de carbohidratos que serão eliminados sob a forma de uma membrana espessa de celulose, em determinadas partes da planta, provocando-lhe o aspecto escleromórfico. Da mesma forma, a escassez nutricional impede o desenvolvimento das espécies, provocando o nanismo. Segundo Arens (In: FERRI, 1971:252-259) a vegetação típica dos campos e cerrado strictu sensu estão associados diretamente à oligotrofia mineral. Conforme o autor, os fatores edáficos da nutrição mineral podem alterar a composição da paisagem entre campo, cerrado, cerradão e matas. Alvim & Araújo (1952) constataram que, em áreas de clima uniforme, as associações vegetais de cerrado se diferem pelo fator solo.
Na mesma linha de pensamento Goodland (In: FERRI, 1971), Ferri (1963:101-103) e Loveless (1961:168-184) concluem que a carência mineral tem profunda influência, seja na morfologia ou na fisionomia da vegetação do cerrado.
Como se pôde observar, as teorias referem-se apenas a alguns tipos de fisionomia vegetal. Da mesma forma, Eiten (1976:131-135), Chebataroff (1968:11-13), Veloso (1966:427-433) e Rizzini (In: FERRI, 1971:107-142) não dão nenhuma ênfase aos demais conjuntos vegetacionais existentes na província dos cerrados. Rizzini (1970:48-56), inclusive, faz a seguinte interpretação para o cerrado:
“Por cerrado entende-se a forma brasileira da formação geral chamada savana, cujo similar mais perfeito é a forma africana. A savana caracteriza-se pela conjunção de um estrato composto de pequenas árvores tortuosas e esparsas e de um estrato baixo constituído de gramíneas, com alguns arbustos e subarbustos.”
Ao se tratar de ambientes abertos em áreas de cerrado, não se pode deixar de enfocar a questão do fogo pela importância capital que se costuma atribuir-lhe, merece um tratamento particular. Arens (op. cit.:295), em um primeiro momento, imputou a idéia de que as queimadas fossem uma das causas primordiais da existência dos cerrados. O mesmo autor afirma que o fogo é um fator que acentua o oligotrofismo no solo, influenciando na propagação e conservação dos cerrados. Coutinho (Apud GOODLAND & FERRI, 1979:53), ao estudar o fogo como fator ecológico, afirma: “As queimadas estimulam a expansão da flora herbácea e subarbustiva em detrimento da flora arbustivo-arbórea transformando áreas de cerradão em áreas campestres”. Ferri (Apud FERNANDES & BEZERRA, op. cit.:142-143) chegou a admitir no estudo do cerrado de Emas que a vegetação ali existente não se tratava de uma formação natural, mas sim um clímax de fogo. Ferri (Id.) ressaltou dizendo que havia uma diferença entre origem “evolucionária” e origem “sucessional”. Afirma que “o fogo não poderia fazer surgir evolucionariamente falando vegetação de cerrado, mas poderia fazer aparecer sucessionariamente essa vegetação onde não existia antes”. Eiten (Apud WARNING & FERRI, 1973:344), ao estudar as influências do homem sobre a vegetação de cerrado, faz a mesma observação a origem dos cerrados.
O fogo, ocorrendo de forma natural, desempenha um papel ecológico importante, influenciando na rebrota das gramíneas que servem de alimento aos animais herbívoros, ou mesmo na manutenção das características fisionômicas dos ambientes abertos. O elemento fogo deve ser considerado no planejamento de áreas de preservação no domínio dos cerrados.
Durante muito tempo o conceito sobre o cerrado permeou sobre as formações vegetais de campo, cerrado strictu sensu e cerradão que, pelas suas características morfológicas e a abrangência dentro da província central, acabaram por limitar a visão dos pesquisadores, que não conseguiram correlacionar os ambientes. Eiten (In: PINTO, 1993:30-70), ao revisar suas teorias e conceitos sobre a constituição fisionômica da província dos cerrados, adota quatorze tipos de paisagens que ele denominou de “ecótipos”. Esses ambientes, no seu ponto de vista, são determinados pelas condições edáficas e se encontram distribuídos por toda a província, com as seguintes denominações: campo limpo de cerrado, campo rupestre, campo sujo, campo cerrado, cerrado senso-estrito, cerradão, campo de murundus, buritizal e veredas, campo úmido, brejos permanentes, pantanal, floresta baixa galeria, floresta mesofítica decídua e floresta mesofítica semidecídua. Apesar de Eiten (Id., ibid.) ter considerado estas formações inseridas na província dos cerrados, ele não faz nenhuma correlação entre elas. Acredita, no entanto, que esses “ecótipos” possam ter surgido a partir de uma outra formação, provavelmente do cerradão, distribuindo-se em áreas de solos mais pobres. Outros renomados estudiosos, como Aubréville (1961), Schnell (1976) e Rizzini (1979), compartilham a mesma idéia de que o cerrado comum surgiu do cerradão mediante degradação operada pela atividade humana
Os conceitos sobre os cerrados têm sido aprimorados, no sentido de estabelecer uma maior relação entre os ambientes, pela sua funcionalidade ecológica. Recentemente, Dias (In: DIAS, 1996:14-25) fez uma análise importante sobre os aspectos físicos, integrando-os ao conjunto da flora e fauna. Filgueiras & Wechsler (1996) correlacionam algumas espécies da flora, principalmente gramíneas, entre os diversos ambientes. No que se refere à integração entre ambientes, para se entender a dinâmica ecológica dos cerrados. A proposta mais ousada até o momento parte de Barbosa (1996). Segundo este autor o cerrado não pode ser analisado somente pelos aspectos fitogeográficos, pois não se trata de uma área uniforme em termos de paisagem vegetal, nem tampouco como uma unidade zoogeográfica, pela complexidade da composição faunística. Deve, sim, ser entendido como um “sistema biogeográfico” constituído por subsistemas integrados que interagem com os demais componentes da natureza.
A teoria de Barbosa (Id,) fornece subsídios para que se possa estabelecer correlações sobre a dispersão da fauna entre os ambientes de cerrado. Para facilitar a compreensão dessa relação, adotamos um método, no qual apresentamos uma lista de espécies da flora e fauna, a nível de gênero e espécie para cada tipo de paisagem, considerando para flora os vegetais mais comuns (endêmicos) a cada tipo de formação; para fauna adotou-se o critério da maior concentração nos nichos ecológicos, em determinado espaço de tempo.
O conceito sobre os cerrados apresentado por Barbosa (op. cit.:14-18) contempla seis subsistemas principais, a saber: campo limpo, cerrado strictu sensu, cerradão, mata, mata ciliar riparia, veredas e ambientes alagadiços. Entre os subsistemas citados existem outras paisagens intermediárias, anteriormente baseadas em Eiten (op. cit.). Esses ambientes serão acoplados a formações similares, pois os mesmos compartilham algumas espécies comuns, entre os vegetais e os animais.
A seguir serão caracterizadas, de forma sucinta, desenvolvidos por Barbosa ( id ), enriquecidos com observações adquiridas em trabalhos de campo ao longo do tempo.
Subsistema campestre: o subsistema campestre engloba as formações de campo limpo, campo sujo, campo cerrado, campo de murunduns e campo rupestre , pois os mesmos possuem uma grande afinidade ambiental. Corresponde a um tipo de vegetação baixa a média, exibindo maciçamente um conjunto herbáceo-graminoso, com subarbustos e arbustos bem espaçados. Abrange por volta de quinhentos (500) gêneros e
uma média de 260 plantas por hectare (RIZZINI, op. cit.:121). Ocupa as partes mais
elevadas do sistema, que apresenta morfologia plana a ondulada; as partes planas são denominadas, regionalmente, chapadões e campinas; as onduladas, de campo de altitude. Pode ocorrer em áreas bem drenadas, ou com inundações periódicas e permanentes (covoais e murunduns). Com base no método de análise de Goodland & Ferri (1979:75-76) para os cerrados, o percentual de dossel arbóreo desses ambientes chega a zero. Isso significa que em certos casos o campo de visão pode alcançar até 100% do horizonte. No campo limpo graminoso o recobrimento do solo gira em torno de 60 a 90% em relação aos demais subsistemas. Os solos são variados, podendo ocorrer em latossolos profundos, concreções ferruginosas (lateritas), substrato de litossolo, areias quartzosas e em solos hidromórficos. A altitude em relação ao nível do mar varia entre 600 e 800 metros para as áreas de chapadas e de 800 a 1700 metros para os campos rupestres.
Este subsistema possui uma fauna peculiar, a qual evoluiu de acordo com o meio ambiente. Algumas espécies, como o Ozotocerus bezoarticos (veado-campeiro) e a Rhea americana (ema), possuem uma estrutura física delgada, com longos membros, adaptados a movimentos rápidos de fuga e observação do inimigo. A grande virtude desses animais se encontra na visão, no olfato e na audição, componentes importantes para sua sobrevivência em lugares abertos. As espécies Myrmecophaga tridactyla (tamanduá bandeira) e Euphractus sexcinctus (tatu-peba) possuem movimentos lentos, mas desenvolveram fortes membros dianteiros com unhas em formato de garras, os quais utilizam como defesa, na procura de alimentos e na abertura de abrigos. As aves que habitam áreas campestres buscam alimentos exclusivamente no solo, desenvolveram fortes pernas para escapar dos predadores, já que os vôos não atingem grandes distâncias.
TABELA 1 - ESPÉCIES DA FLORA E FAUNA COMUNS AO SUBSISTEMA CAMPESTRE
FLORA FAUNA
Echinolaena inflexa (Poir) Chase. (capim-flexinha) Ozotocerus bezoarticos (veado campeiro)
Tristachya leiostachya Nees. (capim-flexa) Myrmecophaga trydactyla (tamanduá bandeira)
Panicum chapadense Swallewn. (capim agreste) Rhea americana (ema)
Vellozia flavicans M. (canela-de-ema) Euphractus sexcintus (tatu-peba peludo)
Byrsonima subterranea Brode (Mart). (murici) Cabassous hispidus (tatu-de-rabo-mole)
Crhysophyllum saboliferum Rizz. (fruto-de-tatu) Nothura maculosa (codorna)
Camponesia cambessedeana Berg. (gabiroba) Rhynchotus rufescens (perdiz)
Eugenia clycina Camb. (pitanga vermelha) Athene cunicularia (coruja buraqueira)
Anacardium humile Mart. (cajuí) Colapteres campestris (pica-pau-do-campo)
Aspilia foliacea (Spreng) Baker. (margaridinha-do-campo) Crotalus durissus collilineatus (cascavel)
Subsistema de cerrado strictu-sensu: corresponde à paisagem típica dos cerrados, com ampla distribuição pela província central. Trata-se, basicamente, de um corpo vegetacional com significativa expressão dada por seus elementos arborescentes (árvores e arbustos, entremeados por subarbustos e cipós), diferente do quadro geral das fisionomias campestres (FERNANDES & BEZZERRA, op. cit.:133). A vegetação rasteira é menos densa do que nos campos, provavelmente devido ao seu dossel mais compacto - entre 30 e 60% de cobertura.
O cerrado propriamente dito pode ocorrer em latossolos submetidos a elevado intemperismo, tipicamente profundos, porosos, ácidos, pobres em bases trocáveis e ricos em óxido de ferro e alumínio, como também em solos arenosos e areias quartzosas, como são os casos do arenito de Botucatu no sudoeste de Goiás e Mato Grosso do Sul, ou mesmo no Urucuia na Bahia (DIAS, op. cit.:16). Apresenta relevo plano a suavemente ondulado (RANZANI, In: FERRI, 1971:45-60).
É um subsistema muito rico em espécies vegetais frutíferas e medicinais, além de possuir a maior quantidade de espécies vasculares por hectare do planeta, variando entre 300 e 450 espécies. O porte médio das árvores gira em torno de sete metros. Essa característica distingue este ambiente do cerradão (EITEN, In: PINTO, op. cit.:71).
Apesar de possuir várias espécies com larga distribuição pelos demais ambientes de cerrado, este subsistema abriga uma flora muito particular, marcada por árvores de pequeno e médio portes, com acentuada tortuosidade e aspecto xeromórfico, o que se explica pela teoria do “escleromorfismo oligotrófico”, citada anteriormente.
A fauna de cerrado strictu sensu é representada por animais que compartilham certas semelhanças com espécies campestres. A preferência por este tipo de habitat está na grande oferta de alimentos e na maior possibilidade de camuflagem. As espécies animais comuns a esta área necessitam de espaços abrangentes onde definem os territórios necessários para o seu ciclo vital. Nessa distribuição transitam pelos demais subsistemas em horários alternados. É uma formação vegetal muito visitada por animais de todo o sistema, em virtude da abundante oferta de frutos, flores, sementes e raízes em épocas intercaladas, mas durante todo o ano.
TABELA 2 - ESPÉCIES DA FLORA E FAUNA COMUNS AO SUBSISTEMA DE CERRADO STRICTU SENSU:
FLORA FAUNA
Cariocar brasiliense. Camb. (pequi) Chrysocyon brachyurus (lobo-guará)
Tabebuia caraiba. Mart. (caraíba) Dusicyon vetulus (raposa-do-mato)
Byrsonima verbascifolia. Rich. (murici) Conepatus semistriatus (jaratataca)
Hancornia speciosa. Gomez. (mangaba) Priodontis giganteos (tatu-canastra)
Brasimum gaudichaudii. Trecc. (mama-cadela) Kunsia tomentosus (rato-do-cerrado)
Solanum lycocarpum. St. Hil. (lobeira) Cariama cristata (seriema)
Hymenaea stigonocarta. Mart. (jatobá) Tupinambis teguixin (teiú)
Pauteria ramiflora. Radlk. (curriola) Ameiva ameiva (calango-verde)
Syagrus flexuosa. Becc. (coquinho) Polyborus plancus (gavião carcará)
Anacardium othonianum. Rizz. (caju-do-cerrado) Milvago chimachima (gavião carrapateiro)
Salacia campestris. Peyer. (bacupari) Heterospizias meridionalis (gavião-caboclo)
Kielmeyera coriacea (Spr.) Mart. (pau-santo) Uropelia campestris (rola-vaqueira)
Subsistema de cerradão: representa um corpo vegetacional com presença de esclerofilia relacionado ao cerrado strictu sensu. Distingue-se deste pela composição florística, diferenciada pela fisionomia das espécies que apresentam caráter florestal, tendo seus componentes um maior desenvolvimento graças às condições de solo, que são favorecidas pelo sombreamento e umidade, importantes elementos na decomposição da matéria orgânica utilizadas pelas plantas.
No que se refere à estrutura, compõe-se de três estratos: um superior, com árvores de 10-12 metros de altura, com algumas emergentes de 15-18m; um mediano, mais ou menos denso, formado por arbustos ou arvoretos que atingem até 3m; e, finalmente, um inferior herbáceo, quase reduzido e pobre de espécies. A composição botânica desse ambiente é representada por mais de 80 espécies num hectare. A cobertura arbórea atinge 93% em formações mais fechadas (WWF, 1995:15). Contudo, o sol penetra e alcança o solo irregularmente. Apesar da densidade, existe um amplo espaçamento entre as espécies que permite fácil locomoção.
Mesmo compartilhando algumas espécies com o subsistema de cerrado strictu sensu, verifica-se no cerradão árvores que se apresentam com troncos retilíneos e ramos pouco tortuosos, suberificação menos intensa, folhas menos consistentes e de maior persistência durante a estação seca.
Ao contrário do cerrado strictu, o cerradão não ocupa grandes extensões, aparece como forma principal de cerrado original em São Paulo, centro do Maranhão e sul do Piauí; mas ocorre de forma menos abrangente nos chapadões e encostas mais ou menos úmidas da província dos cerrados.
A fauna, como em outras áreas abertas, não possuem características exclusivas para esta habitat, tendo a sua dispersão verificada nos demais ambientes de cerrado. Entretanto, algumas espécies podem ser visualizadas com facilidade nesse subsistema, em determinada parte do dia ou da noite.
TABELA 3 - ESPÉCIES DA FLORA E FAUNA COMUNS AO SUBSISTEMA DE CERRADÃO
FLORA FAUNA
Qualea grandifolia. Mart. (pau-terra) Cerdocyon thous. L. (cachorro-do-mato)
Terminalia argentea. Mart (capitão-do-campo) Mazama gouazoubira. Fisch. (veado-catingueiro)
Dimorphandra mollis. Benth. (faveiro) Tamanduá tetradactyla. L. (tamanduá mirim)
Bowdichia virgilioides. H.B.K. (sucupira) Felis concolor. Linnaeus. (onça parda)
Caryocar glabrum. Camb. (pequi-do-gerais) Galictis cuja. Schreber. (furão)
Curatella americana. L. (lixeira) Falco femoralis (falcão-de-coleira)
Tabebuia alba. Cham. (ipê-do-campo) Buteo magnirostris (gavião-carijó)
Xylopia aromática. St, Hil. (pimenta-de-macaco) Falco sparverius (falcão quiri-quiri)
Vochysia thyrsoidea. Pohl. (pau-doce) Ramphastos toco (tucano)
Pseudobombax longiflorum. Mart. (imburuçu) Columba cayennensis (pomba-galega)
Subsistema de mata: ocorre nos interflúvios em várias áreas da província dos cerrados, com solo de boa fertilidade natural, derivado de rochas alcalinas como basalto ou gabros e, às vezes, algumas formas de gnaisse ou micaxisto, como é o caso do antigo “Mato Grosso de Goiás”. São sempre verdes ou semidecíduas quando estão sobre solos mais profundos, do tipo latossolo vermelho-escuro, latossolo roxo e podzólicos. Em vários locais, como no sul de Minas, nordeste de Goiás, oeste da Bahia, entre outros. São completamente decíduas quando estão sobre solos rasos de afloramentos calcários.
Estruturalmente, compõe-se de espécies arbóreas que atingem até 30 metros de altura e um estrato inferior com espécies variando entre 1-12m. O percentual de dossel arbóreo é de 100% nas formações semidecíduas e 90% nas decíduas durante o período chuvoso. A quantidade de árvores por hectare é superior a 5.000 plantas, com mais de 80 espécies (GOODLAND & FERRI, op. cit.).
Apesar de se encontrar inserida na província central, as espécies vegetais que ocorrem nesse ambiente não apresentam nenhum aspecto de xeromorfismo ou escleromorfismo. Isso se deve, provavelmente, a fatores ambientais como tipo de solo, elevada quantidade de húmus e umidade, que influenciam no desenvolvimento das espécies.
Por apresentar uma vegetação singular, umbrófila, as matas de cerrado servem de habitat a um tipo de fauna quase que exclusivo. Durante o processo adaptativo desenvolveram características fisionômicas e comportamentais, ligadas ao ambiente. O mais representativo, entre outros, pertence à ordem dos primatas, animais comuns em áreas florestadas.
TABELA 04 - ESPÉCIES DA FLORA E FAUNA COMUNS AO SUBSISTEMA DE MATA
FLORA FAUNA
Chorisia speciosa St. Hil. (paineira) Alouatta caraya. Humb. (guariba)
Aspidosperma discolo R A.D.C. (peroba-de-gomo) Cebus opella Spix. (macaco-prego)
Aspidosperma polyneuron M. Arg. (peroba-rosa) Callithrix penicillata Gumilla (mico)
Myracrodruon urundeuva Fr. All. (aroeira) Nasua nasua Thévet. (quati)
Tabebuia impetiginosa Mart. (ipê-roxo) Eira barbara Thévet. (irara)
Jaracatia spinosa (Abl.) A.D.C. (jacaratiá) Dasyprocta oguti L. (cotia)
Cariniana estrellensis Kuntze. (jequitibá) Sphiggurus villosus Spix. (ouriço-cacheiro)
Copaifera langsdorffi Desf. (copaíba) Mazama americana Erxl. (veado-mateiro)
Hymenaea courbaril. L. Var. (jatobá) Felis pardalis Linnaeus. (jaguatirica)
Enterolobium contortisiliquum Vell. (tamboril) Panthera onca Linnaeus. (onça-pintada)
Anadenanthera colubrina Vell. (angico) Boa constrictor amarali (jibóia)
Didymopanax morototonii. Aubl. (mandiocão) Ortalis aracuan (aracuan)
Syagrus oleracea (Mart) Becc. (guariroba) Amazona aestiva (papagaio-verdadeiro)
Albizia hasslerii (Chodot) Burr. (farinha seca) Tayassu tajacu L. (caitetu)
Cordia glabrata (Mart) DC. (louro-branco) Kerodon rupestris Wied. (mocó)
Subsistema de mata ciliar ripária: o conceito de mata ciliar é tratado de forma genérica para todos os ambientes florestados que acompanham os cursos d’água de diversa natureza. O ambiente ciliar a que no momento estamos nos referindo trata-se de um tipo singular de paisagem, distribuída por todo o sistema dos cerrados, geralmente acompanhando os pequenos cursos d’água e caracteriza-se por espécies vegetais de fuste retilíneo e diâmetro de caule pouco desenvolvido. Por esse motivo a denominação “ripária”. É também conhecida regionalmente por “mata de pindaíba”, em função da grande ocorrência da espécie Xylopia emarginata.
Distribui-se sobre diferentes tipos de solos, entre outros gleis úmidos, hidromórficos e latossolos. Apresenta uma pequena planície de inundação, constantemente ocupada por espécies perenifolias com certa exclusividade para essas áreas. Existe uma boa quantidade de água, disponível a todas as raízes das árvores o ano todo, suficiente para suprir todas as folhas (EITEN, op. cit.:61). Nas bordas dessas formações, acompanhando as faixas de vegetação úmida, desenvolvem-se outras espécies adaptadas a solos mais secos de caráter semidecidual, mas integradas ao subsistema.
Apesar das espécies encontradas nas partes mais úmidas não desenvolverem copas frondosas, o recobrimento do solo é de 90%, em decorrência do espaçamento reduzido entre uma espécie arbórea e outra, favorecendo, também, o crescimento das árvores em linha reta, sem galhos laterais. O sombreamento associado à umidade contribuem para a produção de húmus, melhorando a qualidade do solo que, por sua vez, acelera a germinação e a propagação de novas espécies.
Os ambientes ciliares, de um modo geral, desempenham funções ecológicas importantes para o sistema dos cerrados, servindo de corredores naturais de migração a uma fauna bem variada, distribuída por todos os demais subsistemas. Especificamente, nas matas ripárias podem ser encontrados os “barreiros”, locais úmidos onde se acumulam grande concentração de sal natural (mineral), utilizado como alimento por vários animais, principalmente mamíferos. Os “barreiros” representam uma fonte essencial para esses animais que necessitam de cálcio para o fortalecimento da estrutura óssea. Além dos recursos alimentares este subsistema apresenta uma vegetação densa e de difícil acesso, tornando-o um importante refúgio para a fauna, que conta ainda com a água em caso de fuga. Eles também servem como proteção para o sistema hídrico, servindo de filtro para a água e local de reprodução para peixes das grandes bacias.
Em virtude dessas qualidades ambientais, muitos animais adotaram as matas ripárias como habitat, distribuindo-se em nichos específicos, principalmente os de vida semiaquática. As espécies encontradas nesse ambiente desenvolveram formas de adaptações específicas em função das condições de vida local: a primeira delas corresponde a formas cuneiformes, resultantes da necessidade de se locomover com rapidez e violência para romper obstáculos. Outras características foram adquiridas, como focinho pontudo; testa e nuca em alinhamento crescente, decaindo lentamente nas costas; observados de frente, apresentam o corpo comprido lateralmente. Estas características podem ser visualizadas nas espécies Tapirus terrestris, Pteronura brasiliensis e Tayassu pecari. Existem outras formas desenvolvidas por pequenos animais como felinos: Felis yagonaroundi, Felis geoffroyi; e aves terrícolas: Aramides cajanea e Butorides striatus, cujos movimentos estão diretamente relacionados com o emaranhado do sub-bosque presente nessas formações. As pernas são curtas, lateralmente delgadas e possuem uma plumagem dura e bem acomodada, de modo que facilmente podem penetrar pelo ambiente (DOMINGUES, 1968:77).
TABELA 05 - ESPÉCIES DA FLORA E FAUNA COMUNS AO SUBSISTEMA DE MATA CILIAR RIPÁRIA
FLORA FAUNA
Xylopia emarginata. Mart. (pindaíba) Tapirus terrestris. L. (anta)
Tabebuia roseo-alba. Sand. (ipê-branco) Pteronura brasiliensis. Zimm. (ariranha)
Cecropia pachystachya. Trec. (imbaúba) Hydrochaerus hydrochaeris. L. (capivara)
Croton urucurama. Baill. (sangra d’água) Lutra longicandis. Waterh. (lontra)
Talauma ovata. St. Hil. (pinha-do-brejo) Procyon cancrivorus. Liais. (mão-pelada)
Ficus guaranitica. Schodat. (gameleira) Agouti paca. L. (paca)
Rapanea guianensis. Aubl. (pororoca) Tayassu pecari. Link. (queixada)
Pilocarpus jaborandi. Homes. (jaborandi) Felis geoffroyi. Souza. (gato-do-mato)
Enterpe edulis. Mart. (palmito-juçara) Felis yagonaroundi. Geof. (gato-mourisco)
Triplaris brasiliana. Cham. (pau-formiga) Cavia operea. Wied. (preá)
Genipa americana. L. (jenipapo) Aramides cajanea (saracura)
Pouteria torta. Radlk. (guapeva) Butoris striatus (socó-i)
Inga edulis. Mart. (ingá-comum) Bothrops moojeni (jararaca)
Subsistema de veredas e ambientes alagados : corresponde a ambientes úmidos ou alagadiços, geralmente em cabeceiras de rios, ou em locais onde o solo apresenta uma constante saturação d’água, formando verdadeiros pântanos. Ocorrem quase sempre em solos rasos, mas aparecem também em encostas de morros e afloramento rochoso. A paisagem constitui-se de palmeiras, principalmente a espécie Mauritia vinifera, e um estrato graminoso contínuo e perene, conservando-se verde o ano inteiro. Existem certos lugares onde o afloramento do lençol freático é intenso, formando pequenas lagoas entre os buritizais. Nas bordas das veredas é comum encontrar espécies vegetais das matas riparias como Xylopia emarginata e Euterpes edulis.
As veredas e os ambientes alagadiços, em geral, formam longas faixas, com larguras variadas. São ecologicamente muito importantes, pois na época da estação seca constituem verdadeiros oásis para certos animais que nelas vão buscar água, alimentos e locais para procriação. Geralmente as aves migratórias buscam esses ambientes em determinadas épocas do ano, para fazerem seus ninhos e chocar os ovos.
Os animais de maior freqüência em veredas e alagadiços possuem habilidades para se locomoverem com facilidade nessas áreas, utilizando-se, inclusive, desses recursos para afugentar-se com rapidez em casos de ataque. Não são muitas as espécies que convivem constantemente nesse habitat. Isso talvez se explique por estarem as veredas e os alagadiços nos vales, entre os demais subsistemas de cerrado. Essa característica faz com que se tornem ambientes de transição para fauna em geral. Durante a estação seca, existe uma maior concentração de animais herbívoros pastejando nas bordas desse subsistema, época correspondente à maior escassez de alimentos nos demais ambientes de cerrado, principalmente gramíneas que, ao contrário, nas veredas e alagadiços estão verdes, abundantes e limpas nesse período, graças à diminuição do nível das águas e dos respingos de solo e areia nas folhas. Por essas qualidades ambientais, as veredas e alagadiços desempenham uma importante função ecológica dentro do domínio dos cerrados.
TABELA 06 - ESPÉCIES DA FLORA E FAUNA COMUNS AO SUBSISTEMA DE VEREDAS E AMBIENTES ALAGADIÇOS.
FLORA FAUNA
Mauritia vinifera Mart. (buriti) Blastocerus dichotomas Illiger. (cervo)
Mauritiella armata Mart. (buritirana) Eunectes murinus Linnaeus. (sucuri)
Tibouchina frigidula Cogn. (quaresmeira) Chironectes minimus Zimm. (cuíca d’água)
Macairea sericea Cogn. (quaresmeira-do-brejo) Nectomus squanipes amazonicus Thomas. (rato-d’água)
Hebenaria nasuta L. (orquídea) Casmerodius albus (garça-branca)
Sida spinosa (malva-do-brejo) Theristicus caudatus (curicaca)
Axonopus brasiliensis Kuhlm. (capim-espiga) Dendrocygna viduata (pato-irerê)
Thrasya pettrosa Chase. (macegão) Amazonetta brasiliensis (marreca-ananai)
Paspalum dilatatum Ness. (capim-de-vereda) Gallinula chloropus (frango-d’água)
Panicum densum Swartz (capim-de-vereda) Chloroceryle amazona (martin-pescador)
Algumas espécies animais dos cerrados são limitadas a determinados tipos de habitats. Os espaços são bem definidos de acordo com a necessidade biológica de cada espécie. Esse condicionamento ao ambiente pode ser explicado pelo determinismo ambiental, imposto pela natureza através de recursos alimentícios, que condicionaram os animais especialistas a viverem em determinadas áreas em função do hábito alimentar. Um exemplo conhecido é o da espécie Myrmecophaga tridactyla (tamanduá-bandeira), que se alimenta basicamente de cupins terrestres e formigas, abundantes em campos abertos.
A diversidade de ambientes que constitui a província dos cerrados demonstra ser a componente principal para o desenvolvimento de uma biodiversidade florística e faunística bem mais característica que os demais domínios da América do Sul. Conforme os estudos de Coimbra (1978), ocorrem na América do Sul 12 ordens de mamíferos, totalizando 50 famílias, com aproximadamente 750 espécies. Dentre essas famílias, 27 são endêmicas. Das 12 ordens de mamíferos neotropicais listadas, 11 estão bem representadas no Brasil, com mais de 600 espécies. Segundo Sick (1978), o Brasil é um dos países que possuem a maior variedade de aves do mundo, contando com cerca de 1.580 espécies. Se considerar as espécies migratórias, esse número ultrapassa 2.500 formas diferentes. No que se refere a répteis, Narchi (1978) confirma para o Brasil, aproximadamente, 40 espécies de quelônios, 120 de lagartos, 230 de ofídios, e 5 espécies endêmicas de jacarés e caimãs.
Especificamente para a região dos cerrados, Costa et alli (1980) elaboraram uma lista preliminar de aves, mamíferos e répteis dos cerrados. Nesse trabalho são apontados para a avifauna 935 espécies que ocorrem em todo o sistema. Dentre as espécies listadas, 787 ou cerca de 84,2% não são associados a nenhum ambiente do cerrado, pois se encontram em outros domínios. Do total levantado, as 148 espécies restantes, 15,8% - são anotadas como próprias dos cerrados. Das espécies de aves consideradas típicas do sistema, 30 delas vivem em mais de um tipo de paisagem de cerrado, 84 espécies são indefinidas, e as demais 34 são assinaladas como exclusivas em diferentes habitats distribuídos por todo o cerrado. Considerando o total listado somente para os cerrados, ou seja, 148 espécies, o ambiente preferencial é o campestre, com 33 espécies, seguido de 30 para a mata ciliar e 25 para o cerrado strictu sensu; as 60 restantes são indefinidas.
Quanto aos mamíferos, foram listadas 298 espécies para os cerrados. Não se consideram nesse levantamento os mamíferos aquáticos. As espécies registradas representam 47% dos 632 mamíferos brasileiros catalogados. Do total listado para os cerrados, 230 ocorrem em outros domínios.
No que se refere às 68 espécies (23%) observadas como exclusivas do sistema dos cerrados, sua distribuição ocorre nos seguintes ambientes campestre - 16; cerrado strictu sensu - 9; cerradão - 4; mata - 15; mata ciliar - 21; veredas e alagadiços - 3. Estas espécies não se encontram limitadas a esses locais, podendo ser vistas em certas horas do dia ou da noite cruzando um ou outro ambiente. Desse total, observou-se que 20 ocorrem em mais de um ambiente destes aqui considerados, e 35 espécies são desconhecidas quanto ao tipo de habitat dentro dos cerrados.
Restaram, no entanto, 13 espécies consideradas exclusivas em certas áreas. Este número descarta a possibilidade de se registrar como endêmica a fauna de mamíferos nessa região. Essas espécies, segundo os autores, estão distribuídas nos respectivos ambientes: campestre - 7; cerrado strictu sensu - 2; mata ciliar - 2 e alagadiços - 2. Estas espécies se encontram na relação mostrada anteriormente.
Costa et alli (op. cit.:113-114) registraram para os cerrados 268 espécies de répteis, o que corresponde a 67,8% dos 395 répteis citados por Narchi (op. cit.) para o Brasil. Das 268 espécies listadas, 211ocorrem em outros domínios brasileiros, restando 57 espécies, ou 21,3%, confirmadas para o sistema dos cerrados. Dentre essas, 44 espécies são desconhecidas quanto ao tipo de habitat que ocupariam. Entretanto, 4 espécies têm sua ocorrência em todos os habitats considerados, restando apenas 9, ou 3,4%, do número total de espécies assinaladas, como sendo mais precisas nos ambientes de cerrado. Estas espécies se encontram distribuídas da seguinte forma: ambientes alagadiços - 2; campestre - 1; cerrado strictu sensu - 6. Todas essas espécies estão na listagem anterior.
Costa Lima (1976), ao estudar o centro-sul do Estado de Goiás, sistematizou algumas informações sobre os recursos vegetais e animais dos cerrado. Nesse trabalho são listadas 375 espécies de recursos vegetais utilizadas como alimento pela fauna. Do total anotado, 34% são exclusivas das áreas campestre , 4% são encontradas no cerradão, sendo 3% exclusivas. No ambiente ribeirinho não é significativa a distribuição dos recursos vegetais: dos 9% registrados, apenas 6% são exclusivos. Considerando somente frutos, o ambiente de mata apresenta a maior concentração - cerca de 50% dos recursos, sendo 44% exclusivos. Os 3% restantes ocorrem em todos as áreas.
A maturação dos frutos e a rebrota das gramíneas, fonte principal de alimento de um grande contingente de fauna, não ocorrem de forma homogênea em todas as áreas de cerrado. A grande frutificação acontece durante os meses de novembro, dezembro e janeiro, época que coincide com o auge da estação chuvosa. A concentração desses recursos diminui, acompanhando o fim do período chuvoso. Entretanto, com exceção dos meses de maio e junho, considerados críticos no que se refere à oferta de alimentos, os demais meses que correspondem à época seca, mesmo em menor quantidade, apresentam alguns recursos, entre eles flores, raízes , resinas e alguns frutos.
Costa Lima (Id., ibid.) listou 58 espécies de mamíferos nos cerrados de Goiás, incluindo as espécies voadoras. Destes, 32% são registrados para as áreas campestre, 17% são exclusivos e 15% são comuns a outros habitats. O ambiente de cerradão apresenta 15% das espécies levantadas, mas nenhuma é exclusiva, ou seja, são comuns aos demais. Para o ambiente de matas foram observados 16% dos mamíferos, sendo 5% exclusivos. No ambiente ribeirinho são registrados 22% dos mamíferos, sendo 8% exclusivos. 15% dos mamíferos analisados são comuns a todos os sistemas.
Os mamíferos dos cerrados podem ser observados durante todo o ano, principalmente os que vivem em áreas abertas. Todavia, a maior concentração dessas espécies em seus nichos alimentares se dá nos meses de setembro, outubro, novembro, dezembro e janeiro. Esta época coincide com a rebrota das gramíneas, que geralmente durante a estação seca por ação natural ou antrópica sofrem a ação do fogo e a maturação dos frutos. Neste mesmo período acontece a revoada de insetos (mariposas e tanajuras), o que torna fartos os recursos para os mamíferos insetívoros.
Grande parte desses animais estão se acasalando durante os meses correspondentes à estação seca. Isso significa que no período chuvoso vão estar com filhotes. Essa dinâmica da natureza revela a estreita relação entre a flora e a fauna dos cerrados.
Alguns mamíferos carnívoros vão estar mais concentrados entre os meses de setembro a janeiro, acompanhando a concentração dos mamíferos frugívoros, herbívoros e insetívoros (ALBERTS, 1989). Os mamíferos que têm seus habitats registrados no ambiente ribeirinho estarão mais concentrados durante os meses da estação seca.
No mesmo trabalho Costa Lima (op. cit.:26) apresenta uma lista de 152 espécies de aves distribuídas por todo cerrado. 33% das espécies estão na área campestre, sendo 23% exclusivas, e 10% comuns a outras áreas. 24% do total listado encontra-se no cerradão, mas nenhuma espécie foi anotada como exclusiva, podendo ser observadas em outros ambientes.
Assim como no cerradão, as áreas de mata não apresentam formas exclusivas de aves. Entretanto, 9% das espécies comuns a outros ambientes podem ser encontradas nesse. 25% das espécies avícolas também são registradas no ambiente ribeirinho. Dessa porcentagem, 24% são exclusivos. Os 9% das aves observadas são freqüentes em todos os ambientes.
A maior parte da avifauna da região dos cerrados tem o período de postura durante a estação seca, principalmente entre os meses de junho, julho e agosto. Portanto, a eclosão dos ovos se inicia no começo das chuvas. As aves que vivem em formações abertas vão estar mais reunidas nessa época do ano.
Outro grupo importante apontado pelo autor são os répteis. Foram registradas 31 espécies para os cerrados de Goiás; desses, 34% podem ser encontrados em áreas campestre, sendo que 17% são formas exclusivas. Nenhuma forma de réptil foi listada para o cerradão. Nas matas são encontradas 25% das formas, mas sem nenhuma exclusividade. No ambiente ribeirinho são registradas 41%, sendo que 25% são exclusivos. Nesses ambientes podem ser encontradas as maiores espécies desse grupo.
Os répteis de áreas campestres têm sua maior atividade registrada durante o período chuvoso. As espécies maiores, que vivem em ambientes ciliares e alagadiços, são facilmente visualizados durante a estação seca, época em que os répteis aquáticos põem seus ovos, estas mesmas espécies podem ser encontradas em ambientes secos durante a estação chuvosa, principalmente, a espécies Eunectes murinus ( sucuri) a procura de alimentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao demonstrarmos, em linhas gerais, os aspectos biogeográficos dos cerrados, observamos que a natureza dotou esta região de certos mecanismos naturais que garantem a multiplicação e a propagação das espécies, tanto do reino vegetal como animal. Existe uma estreita interdependência entre a fauna e a flora. O fator biodiversidade animal está diretamente relacionado à diversidade de ambientes. Estes, por sua vez, relaciona-se à variedade de espécies vegetais que se multiplicam sob a influência de fatores litológicos, edáficos e climáticos, de ordem regional e local.
O ciclo vegetativo das plantas dos cerrados ocorrem sob influência de fenômenos climáticos naturais. Durante o período da seca, época que corresponde ao inverno, são registradas as menores taxas de umidade relativa no ar e as maiores intensidades de ventos. Isso acontece justamente no período em que as espécies vegetais que possuem sementes aladas estão abrindo seus frutos, para que o vento seja o elemento dispersor dessas espécies (anemocoria). Quando termina a fase das sementes aladas, começam as chuvas e a maturação dos frutos, que vão servir de alimento a uma fauna bem variada. Ao consumir os frutos, os animais se tornam responsáveis pela dispersão das sementes, principalmente através das fezes (zoocoria). Esses mecanismos de dispersão são confirmados pela grande quantidade de vestígios encontrados durante o período de maturação dos frutos.
Toda esta dinâmica garante à Região dos Cerrados, uma das maiores, ou até mesmo, a maior biodiversidade do planeta.
BIBLIOGRAFIA
ALBERTS, Carlos C. Perigo de vida: predadores e presas: um equilíbrio ameaçado. São Paulo: Atual, 1989. 74p.
ALVIM, P. T. & ARAÚJO, W. A. El suelo como factor ecologico en el desarollo de la vegetación en el centro-oeste del Brasil. Turrialba: 2(4):153-160, 1952.
ARES, Karl. As plantas lenhosas dos campos cerrados como flora adaptada às deficiências minerais do solo. In: FERRI, Mário G. Simpósio sobre o cerrado. São Paulo: Edgar Blücher, 1963. pp.285-303; 1971, pp.249-261.
AUBREVILLE, A. Étude ecologique des principales formations végétales du Brésil. Nogent-sur, Marne: Centre Technique Forestier Tropical, 1961. 168p.
BARBOSA, Altair Sales. Sistema biogeográfico do cerrado: alguns elementos para sua caracterização. Goiânia; UCG, 1996. 43p.
CHEBATAROFF, Jorge. Estepes, pradarias e savanas da América do Sul. In: Boletim geográfico. Rio de Janeiro: 27(207), 1968, p.3-18.
COIMBRA, F. Mamíferos. In: Atlas da fauna brasileira. Rio de Janeiro: Melhoramentos, MA/IBDF - MEC/FENAME, 1978. pp.:23-39.
COSTA et alli, Cláudia Cotrim Corrêa da. Fauna do cerrado: lista preliminar de aves, mamíferos e répteis. Rio de Janeiro: IBGE, 1980. 224p.
COSTA LIMA, Binomio da. Frutos, mamíferos, répteis, peixes, aves e abelhas melíferas do centro-sul de Goiás: uma tentativa de sistematização dos recursos de subsistência. In: Anuário de Divulgação Científica. Goiânia: UCG, 1976. 36p.
COUTINHO, L. M. & FERRI, Mário G. Transpiração de plantas permanentes do cerrado na estação das chuvas. In: Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras/USP. São Paulo: USP, 1956.
DIAS, Bráulio F. de Souza (coord.). Cerrados: uma caracterização. In: Alternativas de desenvolvimento dos cerrados: manejo e conservação dos recursos naturais renováveis. Brasília: Fundação Pró-Natureza, 1996. p.11-25.
DOMINGUES, Muricy. Noções de zoogeografia. In: Boletim geográfico. Rio de Janeiro: 27(202):63-83, 1968.
EITEN, George. Delimitações do conceito do cerrado. In: Boletim geográfico. Rio de Janeiro: 34(249):131-1140, 1976.
_____. The cerrado vegetation of Brazil. In: Botanical Review. Brasília: 38:201-341, 1973.
_____. Vegetação do cerrado: a vegetação e o clima do Brasil. In: PINTO, Maria Novaes (org.). Cerrado: caracterização, ocupação e perspectivas. Brasília: Ed. UnB, 1993. pp.17-73.
FERNANDES, Afrânio & BEZERRA, Prisco. Estudo fitogeográfico do Brasil. Fortaleza: Stylus Comunicações, 1990. 205p.
FERRI, Mário Guimarães. Contribuição ao conhecimento da ecologia do cerrado e da caatinga. Estudo comparativo da ecologia do cerrado e da caatinga. Estudo comparativo do balanço d’água de sua vegetação. In: Boletim da FFCHL/USP. São Paulo: USP, 1955.
_____. Evolução do conceito de xeromorfismo. In: Boletim da FFCHL/USP. São Paulo: 267:101-113, 1963.
FILGUEIRAS, Tarciso S. & WECHSLER, Francisco S. Aproveitamento e manejo: pastagens nativas. In: DIAS, Bráulio F. de Souza (coord.). Alternativas de desenvolvimento dos cerrados: manejo e conservação dos recursos naturais renováveis. Brasília: Fundação Pró-natureza, 1996. p.47-56.
GOODLAND, Robert & FERRI, Mário G. Ecologia do cerrado. Trad.: Eugenio Amado. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: USP, 1979. 193p.
KUHLMANN & SILVA, Zélia Lopes da. Subsídios aos estudos da problemática do cerrado. In: Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro: IBGE, ano 42, n.2:361-381, abr./jun. 1980.
LOVELESS, A. R. A nutritional interpretation of scleromorphy based on differences in the chemical composition of sclerophyllous and mesophytic leaves. Ann. Bot. 25o., 168-184, 1961.
LUETZELBURG, Ph. Von. Estudo botânico do Nordeste. Rio de Janeiro: Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas. Série I-A, n.57, v.2, 126p., v.3, 283p., 1923.
NARCHI, Walter. Répteis. In: Atlas da fauna brasileira. São Paulo: Melhoramento, MA/ IBDF – MEC / FENAME, 1978. P. 67 – 75.
RANZANI, Guido. Solos do cerrado. In: FERRI, Mário Guimarães (coord.). Simpósio sobre o cerrado. São Paulo: Edgard Blücher, 1971. pp.37-72.
RIZZINI, C. Toledo. A flora do cerrado: análise florística das savanas centrais. In: FERRI, Mário Guimarães (coord.). Simpósio sobre o cerrado. São Paulo: Edgard Blücher. 1971. pp.:105-155.
_____. Sobre alguns aspectos do cerrado. In: Boletim geográfico. Rio de Janeiro: IBGE: 29(218):48-66, 1970.
_____. Tratado de fitogeografia do Brasil. São Paulo: HUCITEC/USP, 1979.
SICK, Helmut. Aves. In: Atlas da fauna brasileira. São Paulo: Melhoramentos, MA/IBDF - MEC/FENAME, 1978. pp.:41-65.
VELOSO, Henrique P. Os grandes clímaces do Brasil: considerações gerais sobre a vegetação da região centro-oeste. In: Boletim geográfico. Rio de Janeiro: IBGE: 25(193):427-438, 1966.
WARMING, Eugenius. Lagoa Santa: contribuição para a geographya phytobiológica. Tras.: A. Lofgren. Belo Horizonte: Imprensa Oficial., 1908.
W. W. F. De grão em grão o cerrado perde espaço: cerrado - impactos no processo de ocupação. Brasília, 1995. 66p.
ABSTRAT
The understanding on the environmental aspects of the closed, demands an analysis integrated among the elements of the fauna, flora and the geographical space, like them they link with the other components of the nature. It is believed that, the great biodiversidade of the closed, the diversity of atmospheres is linked. This correlation allows to shimmer us the atmosphere in its totality, what facilitates the adapted establishment of environmental politics for area of the closed ones.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANTAS, Paulo de Tarso Zuquim et alli. Aves comuns do planalto central. Brasília: UnB, 1988. 238p.
CARVALHO, Cory Teixeira. Dicionário dos mamíferos do Brasil. 2a. ed. São Paulo: Nobel, 1979. 133p.
EISEMBERG, J. T. Mammals of the Neotropics. Chicago: University of Chicago Press, 1989. 449p.
FILGUEIRAS, Tarciso S. Graminea (Poaceae). In: RIZZO, José Ângelo (coord.). Flora dos Estados de Goiás e Tocantins. Goiânia: UFG, 1995. V.17, 143p.
FRISCH, Johan Dalgas. Aves brasileiras. São Paulo: Dalgas-Ecaltec Ecologia Técnica, 1981. 353p.
GANS, Carl. Répteis do mundo. Trad.: Emanuel Martiniano Ferreira. São Paulo: Melhoramentos/USP, 1980. 159p.
IHERING, Rodolpho Von. Da vida dos nossos animais: fauna do Brasil. 4a. ed. São Leopoldo, RS: Rotermund, 1969. 320p.
INSTITUTO BRASILEIRO DE DESENVOLVIMENTO FLORESTAL/FBCN. Plano de manejo - P.N.E. Brasília: 1981. 91p.
LORENZI, Harri. Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas nativas do Brasil. São Paulo: Plantarum, 1992. 352p.
_____. Palmeiras no Brasil: nativas e exóticas. São Paulo: Plantarum, 1996. 303p.
RIZZINI & MORS, Walter B. Botânica econômica brasileira. São Paulo: EPU-USP, 1976. 212P.
SILVA, Flávio. Mamíferos silvestres do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Fundação Zoobotânica, 1984. 245p.
SIQUEIRA, Josafá Carlos de. Plantas medicinais: identificação e uso das espécies dos cerrados. São Paulo: Loyola, 1988. 39p.
WANDERLEY, Maria das Graças Lapa. Xyridaceae. In: RIZZO, José Ângelo (coord.). Flora do Estado de Goiás. Goiânia: CEGRAF, 1989. 81P.
|